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  BioAssay 1:4 (2006) ISSN: 1809-8460  
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CONTROLE QUÍMICO

Toxicidade de Pesticidas Utilizados na Cultura do Pessegueiro para Estágios Imaturos de Trichogramma pretiosum Riley (Hymenoptera: Trichogrammatidae)

FABRIZIO P. GIOLO, ANDERSON D. GRÜTZMACHER, CRISTIANE G. MANZONI, WAGNER DA R. HÄRTER, CRISTIANE MÜLLER E RODOLFO V. CASTILHOS

Depto. Fitossanidade, Faculdade de Agronomia "Eliseu Maciel" Universidade Federal de Pelotas - UFPel Campus Universitário, Caixa Postal 354, 96.010-900 - Pelotas - RS. E-mail: adgrutzm@ufpel.tche.br



Enviado em: 5/I/2006; Aceito em: 8/V/2006; Publicado em: 1/VI/2006

Toxicity of Pesticides Used in Peach Orchards to Immatures Stages of Trichogramma pretiosum Riley (Hymenoptera: Trichogrammatidae)

ABSTRACT - One of the most promising biological agent to control Grapholita molesta (Busck) and Argyrotaenia sphaleropa (Meyrick) (Lepidoptera: Tortricidae) in peach orchards in Brazil is the egg parasitoid Trichogramma pretiosum Riley. Nevertheless, there is little knowledge on the toxicity of the pesticides commonly used in peach orchards on this parasitoid. Thus, the toxicity of the pesticides (commercial name - g or ml of commercial product.100L-1) abamectin (Vertimec 18 CE - 80), carbaryl (Sevin 480 SC - 360), deltamethrin (Decis 25 CE - 40), sulphur (Kumulus DF - 600), ethofenprox (Trebon 100 SC - 150), fenthion (Lebaycid 500 - 100), phosmet (Imidan 500 WP - 200), glyphosate (Glifosato Nortox - 6 L.ha-1), glufosinate-ammonium (Finale - 2 L. ha-1), malathion (Malathion 1000 CE - 200), mineral oil (Assist - 2000) and trichlorphon (Dipterex 500 - 300) was evaluated to immatures stages of parasitoid under laboratory conditions. Additionally water was used as the control. The bioassays were carried out by direct application of pesticides on eggs of Anagasta kuehniella (Zeller) (Lepidoptera: Pyralidae) containing the immature stages egg-larva, pre-pupa and pupa of T. pretiosum. The reduction on adult emergence compared with the control was used to measure the effect of the chemical. Pesticides were then classified in four categories, according to IOBC/WPRS. The insecticide carbaryl was slightly harmful to egg-larva and pupa stages and moderately harmful to pre-pupa stage. The insecticide malathion was harmless to egg-larva and pre-pupa stage and slightly harmful to pupa stage. The other pesticides were harmless to immature stages of T. pretiosum, so that they can be used for the control of pests in peach orchards with this parasitoid.

KEY WORDS - Natural enemy, selectivity, egg parasitoids, Prunus persica L.

RESUMO - Um dos promissores agentes biológicos para controle da Grapholita molesta (Busck) e Argyrotaenia sphaleropa (Meyrick) (Lepidoptera: Tortricidae) em pomares de pessegueiro do Brasil é o parasitóide de ovos Trichogramma pretiosum Riley. Porém, pouco se conhece sobre a toxicidade dos pesticidas utilizados na cultura do pessegueiro sobre este parasitóide.  Neste sentido, a toxicidade dos pesticidas (nome comercial - g ou ml de produto comercial.100 L-1) abamectina (Vertimec 18 CE - 80), carbaril (Sevin 480 SC - 360), deltametrina (Decis 25 CE - 40), enxofre (Kumulus DF - 600), etofenproxi (Trebon 100 SC - 150), fentiona (Lebaycid 500 - 100), fosmete (Imidan 500 WP - 200), glifosato (Glifosato Nortox - 6 L.ha-1), glufosinato-sal de amônio (Finale - 2 L. ha-1), malationa (Malathion 1000 CE - 200), óleo mineral (Assist - 2000) e triclorfom (Dipterex 500 - 300) foi avaliada nos estágios imaturos do parasitóide, em laboratório. Utilizou-se água como tratamento testemunha. Os bioensaios consistiram na pulverização direta dos tratamentos sobre ovos de Anagasta kuehniella (Zeller) (Lepidoptera: Pyralidae) contendo em seu interior o parasitóide nos estágios de ovo-larva, pré-pupa e pupa. Reduções na emergência de adultos em relação à testemunha foram utilizadas para mensurar os efeitos dos tratamentos. Os pesticidas foram então classificados de acordo com as categorias da IOBC/WPRS. O inseticida carbaril foi levemente nocivo aos estágios de ovo-larva e pupa e moderadamente nocivo ao estágio de pré-pupa. O inseticida malationa foi inócuo aos estágios de ovo-larva e pré-pupa e levemente nocivo ao estágio de pupa. Os demais pesticidas foram inócuos a T. pretiosum e podem ser utilizados em associação com esta espécie no controle de pragas em pomares de pessegueiro.

PALAVRAS-CHAVE - Inimigo natural, seletividade, parasitóide de ovos, Prunus persica L. 

  • Introdução
  • Material e Métodos
  • Tabela 1
  • Resultados e Discussão
  • Tabela 2
  • Tabela 3
  • Agradecimentos
  • Literatura Citada
  • No ano de 2002, foram cultivados no Brasil, aproximadamente 121.000 hectares com frutíferas de clima temperado. Dentre estas, destaca-se a cultura do pessegueiro, com 24.540 hectares cultivados. O estado do Rio Grande do Sul (RS) é o principal produtor, sendo responsável por aproximadamente 50% da produção nacional. Por outro lado, as regiões produtoras de pêssego no Sul do Brasil são caracterizadas pelo baixo rendimento em relação a outros estados brasileiros (IBGE 2003), principalmente devido às condições climáticas favoráveis ao estabelecimento de pragas, o que promove a intensificação na utilização de pesticidas pelos persicultores. 

    A grafolita, também conhecida como broca-dos-ponteiros ou mariposa-oriental, Grapholita molesta (Busck) (Lepidoptera: Tortricidae), destaca-se como um dos principais insetos-praga que ocasionam perdas significativas à cultura do pessegueiro no RS (Botton et al. 2001). Recentemente, outro tortricídeo conhecido popularmente como lagarta-das-fruteiras, Argyrotaenia sphaleropa (Meyrick) (Lepidoptera: Tortricidae), também foi constatado em pomares de pessegueiro do RS, ocasionando 1,8 a 2,2% de frutos danificados (Botton et al. 2003). 

    Uma alternativa a ser incorporada ao manejo integrado da grafolita e da lagarta-das-fruteiras, seria a utilização do parasitóide de ovos Trichogramma pretiosum Riley (Hymenoptera: Trichogrammatidae), que vem se destacando no parasitismo de G. molesta (Afonso 2001, Pinto et al. 2002) e também de A. sphaleropa (Basso et al. 1998), demonstrando potencial de utilização na cultura do pessegueiro. 
    Uma das limitações na utilização destes parasitóides é a carência de informações sobre a toxicidade dos pesticidas registrados para a cultura do pessegueiro à entomofauna benéfica. O conhecimento de moléculas seletivas favoreceria a integração dos métodos de controle químico e biológico. Da mesma forma, o conhecimento da suscetibilidade a pesticidas para os distintos estágios  de vida do parasitóides são imprescindíveis, pois, os estágios imaturos normalmente são menos suscetíveis aos pesticidas, por se encontrarem no interior do ovo hospedeiro. A partir do conhecimento destas informações, épocas alternativas de liberação dos parasitóides, poderiam ser estipuladas, evitando-se coincidir o momento em que os pesticidas são pulverizados na cultura com o estágio de vida mais suscetível.

    No Brasil, apesar de vários bioensaios de toxicidade de pesticidas já terem sido conduzidos sobre adultos de Trichogramma spp. (Hohmann 1993, Castelo Branco & França 1995, Torres et al. 1996, Carvalho et al. 1999, Carvalho et al. 2001a, Rocha & Carvalho 2004) e diferentes estágios imaturos (Hohmann 1991, Carvalho et al. 2001b, Carvalho et al. 2003a, Carvalho et al. 2003b, Moura et al. 2005), principalmente de T. pretiosum, a grande maioria destes estudos tiveram como foco a cultura do tomateiro. 

    Estudos da toxicidade de pesticidas a artrópodes benéficos devem ser regionalizados e direcionados a cada programa específico de manejo de cada cultura (Degrande et al. 2002). Na cultura do pessegueiro, vem se destacando o sistema de Produção Integrada de Pêssego (PIP) que prioriza a minimização do controle químico e também restringe a utilização de moléculas extremamente tóxicas (Normas 2001, Fachinello et al. 2003). Grützmacher et al. (2004) avaliaram a toxicidade de seis pesticidas recomendados na PIP do Brasil, sobre Trichogramma cacoeciae Marchal (Hymenoptera: Trichogrammatidae), a espécie-padrão da "Internacional Organization for Biological and Integrated Control of Noxious Animals and Plants, West Palaearctic Regional Section (IOBC/WPRS)" mediante a condução de testes sobre adultos e também sobre estágios imaturos. No Brasil, Giolo et al. (2005) avaliaram a toxicidade de oito pesticidas recomendados na PIP, porém somente sobre adultos de T. pretiosum

    Considerando o potencial e a importância da espécie de parasitóide T. pretiosum como agente biológico de supressão populacional de G. molesta e A. sphaleropa em pomares de pessegueiro, objetivou-se no presente estudo avaliar a toxicidade de doze pesticidas utilizados na cultura do pessegueiro sobre os diferentes estágios imaturos de desenvolvimento de T. pretiosum.

    Material e Métodos
    Os experimentos foram conduzidos nos laboratórios de Biologia de Insetos, Controle Biológico e de Pesticidas do Departamento de Fitossanidade, Faculdade de Agronomia "Eliseu Maciel" Universidade Federal de Pelotas em Pelotas, RS e seguiram a metodologia sugerida pela IOBC/WPRS (Hassan 1992, Cônsoli et al. 1998, Hassan & Abdelgader 2001).

    Material Biológico Utilizado nos Experimentos. Foi constituído por parasitóides de ovos da espécie T. pretiosum, coletados em Pelotas, RS. Estes parasitóides deram origem a uma criação em laboratório, mantida em câmaras climatizadas sob temperatura de 25±1ºC, umidade relativa de 70±10% e fotofase de 14 h e, multiplicados em ovos inviabilizados sob lâmpada germicida (Stein & Parra 1987), do hospedeiro alternativo, Anagasta kuehniella (Zeller) (Lepidoptera: Pyralidae), criado conforme metodologia descrita por Parra (1997), utilizando-se dieta artificial composta de farinha de trigo (97%) e levedo de cerveja (3%). 

    Bioensaios de Toxicidade de Pesticidas a T. pretiosum em seus Estágios Imaturos de Desenvolvimento. Cartões contendo 60 círculos de 1 cm de diâmetro com aproximadamente 400±50 ovos por círculo, de no máximo 24 h de idade, do hospedeiro A. kuehniella, foram expostos ao parasitismo por T. pretiosum. Após o parasitismo, os parasitóides foram descartadas e os cartões contendo ovos supostamente parasitados foram transferidos para cilindros de vidro e acondicionados em câmaras climatizadas sob mesmas condições da criação, até os parasitóides atingirem os períodos de desenvolvimento de 24 h (1 dia), 72 h (3 dias) e 168 h (7 dias), correspondendo, respectivamente, aos estágios de ovo-larva, pré-pupa e pupa de T. pretiosum (Cônsoli et al. 1999a). Para cada estágio de desenvolvimento foi utilizado um cartão contendo 60 círculos.

    Os pesticidas utilizados nos experimentos estão registrados e/ou encontram-se em fase de registro para o controle de pragas na cultura do pessegueiro (Tabela 1), sendo a maioria recomendada na PIP (Fachinello et al. 2003). 
     
    Tabela 1. Pesticidas utilizados na cultura do pessegueiro e avaliados nos testes de toxicidade para T. pretiosum em seus estágios imaturos. 
    Nome técnico
    Nome comercial 
    Classe1
    Grupo químico
    DC2
    C.i.a.3
    C.f.c.4
    Abamectina Vertimec 18 CE
    A/I
    Avermectinas
    80
    0,014
    0,080
    Carbaril  Sevin 480 SC
    Carbamato
    360
    0,173
    0,360
    Deltametrina Decis 25 CE
    I
    Piretróide
    40
    0,010
    0,040
    Enxofre Kumulus DF
    F/A
    Inorgânico
    600
    0,480
    0,600
    Etofenproxi Trebon 100 SC
    I
    Éter piretróide
    150
    0,015
    0,150
    Fentiona Lebaycid 500
    Organofosforado
    100
    0,050
    0,100
    Fosmete Imidan 500 WP
    I
    Organofosforado
    200
    0,100
    0,200
    Glifosato Glifosato Nortox
    H
    Glicina
    6*
    1,080
    3,000
    Glufosinato-sal de amônio Finale
    H
    Homoalanina substituída
    2*
    0,200
    1,000
    Malationa Malathion 1000 CE
    I
    Organofosforado
    200
    0,200
    0,200
    Óleo mineral Assist
    I/A
    Hidrocarboneto
    2000
    1,512
    2,000
    Triclorfom Dipterex 500
    I
    Organofosforado
    300
    0,150
    0,300
    1A=acaricida, F = fungicida, H = herbicida, I = inseticida. 2DC = Dosagem da formulação comercial (g ou ml.100 L-1) * L.ha-1. 3C.i.a. = Concentração (%) testada do ingrediente ativo na calda. 4C.f.c. = Concentração (%) testada da formulação comercial na calda. 

    Os círculos com os ovos do hospedeiro contendo os parasitóides em diferentes fases de desenvolvimento (ovo-larva, pré-pupa e pupa) foram diretamente pulverizados com pulverizadores manuais de 580 ml que proporcionaram um volume de calda variando de 1,75± 0,25 mg.cm-2. O volume aplicado foi controlado através da pesagem, em balança eletrônica de precisão, antes e após a pulverização dos pesticidas. O excesso de umidade produzido pela calda foi evaporado deixando os ovos tratados por cerca de três horas a temperatura ambiente. Após este período, os círculos com ovos foram transferidos para recipientes de vidro (10 cm de comprimento e 2,5 cm de diâmetro) vedados na parte superior com tecido, preso com elástico, permitindo a ventilação e evitando-se a fuga dos parasitóides após emergência. 

    A porcentagem de emergência foi avaliada mediante contagem do número de adultos do parasitóide contido no recipiente de vidro em relação ao número total de ovos parasitados contido no círculo de 1 cm de diâmetro. Ovos parasitados por Trichogramma adquirem uma coloração escura característica, que permite a identificação da ocorrência do parasitismo (Cônsoli et al. 1999a). Cada tratamento foi repetido oito vezes, sendo que cada círculo continha 400 ± 50 ovos parasitados, considerado uma repetição no delineamento inteiramente casualizado em esquema fatorial (12 pesticidas, 3 estágios do parasitóide e 8 repetições).

    Análise dos Resultados. Os dados obtidos foram testados quanto à normalidade (PROC UNIVARIATE) e, posteriormente, submetidos à análise de variância (PROC GLM) e comparação de médias pelo teste de Tukey, ambos ao nível de 5% de probabilidade, mediante uso do programa estatístico SAS Institute (2002). Reduções na emergência dos adultos para os pesticidas testados foram comparadas com a testemunha e corrigidas por Abbott (1925). Com base nestas reduções na emergência de adultos (RE), os pesticidas testados (Tabela 1) foram classificados segundo a IOBC/WPRS (Hassan & Abdelgader 2001) em: 1- inócuo (<30% RE); 2- levemente nocivo (30-79% RE); 3- moderadamente nocivo (80-99% RE) e 4- nocivo (>99% RE). 

    Resultados e Discussão
    Nos experimentos I e II não ocorreram diferenças significativas na porcentagem de emergência dos adultos em nenhum dos estágios de desenvolvimento avaliados em relação à testemunha de cada experimento, inclusive quando comparados com os valores médios de emergência de adultos obtidos nos três estágios de desenvolvimento. Diferentemente, no experimento III, a porcentagem de emergência de adultos de T. pretiosum foi significativamente inferior para o inseticida carbaril com percentuais de 46,0 e 15,6, respectivamente para os estágios de ovo-larva e pré-pupa. No estágio de pupa, malationa e carbaril propiciaram, respectivamente, a emergência de 45,6 e 53,5% dos adultos do parasitóide, diferindo significativamente da testemunha. Os demais pesticidas avaliados no experimento III, também não afetaram significativamente a emergência de T. pretiosum (Tabela 2). Avaliando-se os valores médios de adultos emergidos nos três estágios de desenvolvimento, verifica-se que além de carbaril e malationa, o acaricida-inseticida abamectina também diferiu significativamente da testemunha (Tabela 2).
     
    Tabela 2. Porcentagem média (± EP) de emergência de adultos de T. pretiosum quando ovos do hospedeiro A. kuehniella foram pulverizados contendo o parasitóide em diferentes estágios de desenvolvimento. Temperatura 25±1ºC; UR: 70±10%; Fotofase: 14 h. 

    Comparando-se os estágios de desenvolvimento, observa-se que no experimento I, no tratamento com o herbicida glifosato, houve diferenças significativas entre os estágios de ovo-larva e pré-pupa, sendo que estes não diferiram do estágio de pupa (Tabela 2). Diferenças também foram observadas no experimento II para o inseticida fosmete, onde a porcentagem de emergência foi significativamente superior para o estágio de pupa em relação ao estágio de ovo-larva (Tabela 2). No experimento III, a porcentagem de emergência foi inferior para o estágio de pupa do parasitóide em relação ao estágio de ovo-larva para o inseticida-acaricida óleo mineral. Neste mesmo bioensaio, resultado similar também foi observado para o inseticida malationa, onde a porcentagem de emergência para o estágio de pupa do parasitóide foi estatisticamente inferior aos estágios de ovo-larva e pré-pupa. Por outro lado, carbaril foi mais prejudicial ao estágio de pré-pupa, para o qual houve uma porcentagem inferior de emergência de adultos em relação aos outros dois estágios de desenvolvimento (Tabela 2).

    Na Tabela 3 estão apresentadas às reduções na emergência de adultos de T. pretiosum, para os respectivos estágios de desenvolvimento avaliados e a aplicação da classificação proposta pela IOBC/WPRS para testes de toxicidade com parasitóides. Dos doze pesticidas avaliados, 83,3% foram considerados inócuos (classe 1) para todos os estágios de desenvolvimento avaliados. Quando consideramos cada estágio de desenvolvimento, 91,7% dos pesticidas foram inócuos para o estágio de ovo-larva e pré-pupa e 83,3% dos pesticidas foram inócuos para o estágio de pupa. Apenas no experimento III, foram observadas reduções na emergência de adultos do parasitóide superiores a 30%, que é o limite superior da classe 1 (inócuo), sendo que  malationa foi levemente nocivo (classe 2) somente no estágio de pupa, enquanto que carbaril foi levemente nocivo para os estágios de ovo-larva e pupa e moderadamente nocivo (classe 3) para o estágio de pré-pupa.
     
    Tabela 3. Redução na emergência (%) de adultos de T. pretiosum quando ovos do hospedeiro A. kuehniella foram pulverizados com pesticidas, contendo o parasitóide em diferentes estágios de desenvolvimento e classificação de toxicidade destes produtos. Temperatura 25±1ºC; UR: 70±10%; Fotofase: 14 h. 
    Tratamentos Estágio de desenvolvimento
    Ovo-larva
    Pré-pupa
    Pupa
    RE1
    Classe2
    RE
    Classe
    RE
    Classe
    Experimento I
    Enxofre 9,30 1 14,90 1 0,00 1
    Glifosato 0,00 1 16,58 1 6,04 1
    Glufosinato amônio 14,51 1 0,00 1 0,00 1
    Triclorfom 0,00 1 3,88 1 0,15 1
    Experimento II
    Deltametrina 8,78 1 0,00 1 0,00 1
    Etofenproxi 8,02 1 0,00 1 0,00 1
    Fentiona 11,31 1 0,00 1 2,41 1
    Fosmete 11,68 1 0,00 1 0,00 1
    Experimento III
    Abamectina  13,84 1 9,01 1 8,52 1
    Carbaril  56,25 2 85,18 3 47,15 2
    Malationa 7,56 1 6,05 1 55,02 2
    Óleo mineral  0,00 1  3,41 1 10,54 1
    1RE = Redução na emergência de adultos comparada com a testemunha do experimento. 
    2Classes da IOBC/WPRS para teste de toxicidade sobre Trichogramma spp. em seus estágios imaturos: 1 = inócuo (<30%), 2 = levemente nocivo (30-79%), 3 = moderadamente nocivo (80-99%), 4 = nocivo (>99%).

    Dos pesticidas avaliados neste estudo, apenas malationa (organofosforado) e carbaril (carbamato) apresentaram algum efeito deletério sobre a emergência de adultos de T. pretiosum. Outros organofosforados como fentiona, fosmete e triclorfom, os piretróides deltametrina e etofenproxi, os herbicidas glifosato e glufosinato-sal de amônio, e demais pesticidas contendo como ingrediente ativo abamectina, enxofre e óleo mineral quando pulverizados sobre os estágios imaturos de ovo-larva, pré-pupa e pupa, não causaram reduções acima de 30% na emergência de adultos do parasitóide, ficando dentro da classe inócuo, conforme a classificação proposta pela IOBC/WPRS.

    Resultados similares para a porcentagem de emergência de adultos de T. pretiosum foram previamente relatados para óleo mineral e enxofre, pulverizados sobre Trichogramma cacoeciae Marchal em seus estágios imaturos (Hassan 1998, Grützmacher et al. 2004) e para os inseticidas deltametrina e triclorfom para Trichogramma cordubensis Vargas & Cabello (Vieira et al. 2001). Por outro lado, a porcentagem de emergência de adultos de T. pretiosum obtida neste trabalho foi superior à observada em outros estudos com deltametrina (Youssef et al. 2004), fentiona e triclorfom (Hassan 1998, Grützmacher et al. 2004) e fosmete (Hassan 1998, Sterk et al. 1999) sobre T. cacoeciae, de deltametrina (Hohmann 1991) e abamectina (Cônsoli et al. 1998, Carvalho et al. 2001b) sobre T. pretiosum e de etofenproxi sobre Trichogramma dendrolimi (Matsumura) (Takada et al. 2001).

    As diferenças nos resultados obtidos podem estar relacionadas a características intrínsecas dos ovos hospedeiros, às espécies e/ou linhagens de Trichogramma, às concentrações dos pesticidas e às distintas metodologias utilizadas nos respectivos bioensaios. 

    Com relação aos ovos do hospedeiro, características como permeabilidade do córion e das camadas adjacentes são variáveis de acordo com a espécie, idade e estágio de desenvolvimento do ovo (Cônsoli et al. 1999b). Neste sentido, Cônsoli et al. (1999b) estudaram as estruturas de ovos de seis espécies de lepidópteros, incluindo A. kuehniella. Estes autores verificaram diferenças intraespecíficas na espessura do córion, especialmente do exocórion e na densidade protéica desta última camada, a qual, provavelmente, foi um dos fatores responsáveis pela não penetração de determinados pesticidas. 

    A existência de diferenças interespecíficas de suscetibilidade de Trichogramma spp. (Bull & Coleman 1985) a pesticidas e de diferenças intraespecíficas para T. pretiosum (Carvalho et al. 2003a), relatadas previamente, demonstram a necessidade de realização de estudos toxicológicos com a espécie, e se possível, com a linhagem a ser utilizada no programa de controle biológico na cultura. Essas diferenças explicariam em parte os efeitos nocivos ocasionados pelos inseticidas fentiona e triclorfom, que foram testados na mesma concentração do presente estudo, relatados por Grützmacher et al. (2004). Porém, neste trabalho realizado na Alemanha, os bioensaios sobre imaturos foram conduzidos com T. cacoeciae criados sobre ovos de Sitotroga cerealella (Oliv.) (Lepidoptera: Gelechiidae) como hospedeiro, os quais, possivelmente também contribuíram para a discrepância entre os resultados. 

    Em estudo conduzido por Bull & Coleman (1985) ficou evidenciado que a concentração do inseticida a qual os ovos parasitados foram expostos influencia significativamente na emergência de adultos de Trichogramma spp. No presente estudo, abamectina, deltametrina, etofenproxi e fosmete foram pulverizados em concentrações inferiores àquelas utilizadas, respectivamente, por Carvalho et al. (2003b), Youssef et al. (2004), Takada et al. (2001) e Sterk et al. (1999). Características do hospedeiro e da espécie e/ou linhagem utilizada nos distintos estudos também poderiam ter influenciado nos resultados obtidos. Outro fator importante que deve ser destacado é a falta de padronização nos testes de toxicidade de pesticidas a inimigos naturais (Degrande et al. 2002), pois alguns trabalhos utilizaram metodologias distintas (Takada et al. 2001, Carvalho et al. 2003b) o que também deve ser considerado. 

    Dos doze pesticidas testados, os inseticidas carbaril e malationa foram os mais nocivos aos estágios imaturos de T. pretiosum. O inseticida carbaril também é considerado nocivo a adultos deste parasitóide (Giolo et al. 2005), tendo seu uso restringido a uma aplicação por safra na PIP (Normas 2001). 

    A partir dos resultados obtidos nos testes de toxicidade, com as respectivas concentrações indicadas na cultura do pessegueiro, conclui-se que os pesticidas abamectina, deltametrina, enxofre, etofenproxi, fentiona, fosmete, glifosato, glufosinato sal de amônio, óleo mineral e triclorfom podem ser utilizados em associação com T. pretiosum, sendo viável esta integração quando o parasitóide encontra-se nos estágios imaturos de desenvolvimento. Os inseticidas carbaril e malationa que apresentaram efeitos deletérios sobre estágios imaturos de desenvolvimento devem, sempre que possível, ter a sua utilização evitada. Estudos adicionais de seletividade destes pesticidas são necessários e devem ser conduzidos com ovos dos hospedeiros naturais G. molesta e A. sphaleropa e também com adultos de T. pretiosum, que estão mais expostos aos pesticidas, tanto em laboratório quanto em condições de campo.

    Agradecimentos
    Os autores agradecem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Brasil (CNPq) e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS) pelo apoio financeiro para a realização desta pesquisa. 

    Literatura Citada
    Abbott, W.S. 1925. A method of computing the effectiveness of an insecticide.  J. Econ. Entomol. 18:265-267.

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