Seletividade de Agroquímicos
Utilizados na Produção Integrada de Maçã aos
Parasitóides Trichogramma pretiosum Riley e Trichogramma
atopovirilia Oatman & Platner (Hymenoptera: Trichogrammatidae)
1Depto. Fitossanidade, Faculdade de Agronomia "Eliseu Maciel"
Universidade Federal de Pelotas - UFPel Campus Universitário, Caixa
Postal 354, 96.010-900 - Pelotas - RS. E-mail: cristianemanzoni@hotmail.com.
Side-effects of pesticides used in Integrated Production of Apples
to parasitoids of Trichogramma pretiosum Riley and Trichogramma atopovirilia
Oatman & Platner (Hymenoptera: Trichogrammatidae)
ABSTRACT - Parasitoids of genus Trichogramma represent
an alternative to control tortricids in apple orchards; however, it is
necessary to use selective pesticides for managing this crop. The side-effects
of pesticides used in Integrated Production of Apples, were evaluated to
parasitoid Trichogramma pretiosum Riley and Trichogramma atopovirilia
Oatman
& Platner (Hymenoptera: Trichogrammatidae) under laboratory conditions,
by following protocols of IOBC/WPRS. Bioassays were carried with: a) adults
by exposing to fresh pesticides residues, applied on glass plates; b) immature
stages, with applications of pesticides on eggs of
Anagasta kuehniella
(Zeller)
(Lepidoptera: Pyralidae), with the parasitoid in the egg-larvae, pre-pupae
and pupae stages. The reduction in the parasitization (adults) and reduction
on adults emergence (immatures), in relation the control were used to classified
the pesticides in harmless (<30%), slightly harmful (30-79%), moderately
harmful (80-99%) and harmful (>99%). Out of 60 pesticides tested in bioassays
with adults of T. pretiosum, 60% were harmless, 10% slightly harmful,
16.67% moderately harmful and 13.33% harmful. In bioassays with immatures,
out of 19 pesticides evaluated, 73.68% were harmless for all immatures
stages and the others were slightly harmful in at least one stage. For
T. atopovirilia, of the 40 pesticides evaluated with adults, 45%
were harmless, 15% slightly harmful, 12.5% moderately harmful and 27.5%
harmful; in bioassays with immatures of the 17 pesticides tested 58.82%
were harmless for the three stages, while 41.18% were slightly harmful,
moderately harmful and harmful. T. atopovirilia was more sensitive
than T. pretiosum to evaluated pesticides in the tests with either
adults or immatures.
KEY WORDS - Malus domestica, natural enemy, egg parasitoids,
IOBC
RESUMO - Parasitóides do gênero Trichogramma
representam
uma alternativa no controle de tortricídeos da macieira, porém
é necessário empregar agroquímicos seletivos no manejo
da cultura. Foi avaliada a seletividade de agroquímicos utilizados
na Produção Integrada de Maçãs, aos parasitóides
Trichogramma
pretiosum Riley e Trichogramma atopovirilia Oatman & Platner
(Hymenoptera: Trichogrammatidae) em laboratório, seguindo protocolos
da IOBC/WPRS. Foram conduzidos bioensaios com: a) adultos com a exposição
a resíduos dos produtos pulverizados sobre placas de vidro; b) estágios
imaturos com a aplicação dos agroquímicos sobre ovos
de Anagasta kuehniella (Zeller) (Lepidoptera: Pyralidae), contendo
o parasitóide nos estágios de ovo-larva, pré-pupa
e pupa. A redução no parasitismo (adultos) e redução
na emergência de adultos (imaturos), em relação à
testemunha foram empregados para classificar os compostos em inócuo
(<30%), levemente nocivo (30-79%), moderadamente nocivo (80-99%) e nocivo
(>99%). De 60 agroquímicos testados nos bioensaios com adultos de
T. pretiosum, 60% foram inócuos, 10% levemente nocivos, 16,67%
moderadamente nocivos e 13,33% nocivos. Nos bioensaios com imaturos, dos
19 produtos avaliados, 73,68% foram inócuos a todos os estágios,
os demais foram levemente nocivos em pelo menos um dos estágios.
Para T. atopovirilia, de 40 agroquímicos avaliados para adultos,
45% foram inócuos, 15% levemente nocivos, 12,5% moderadamente nocivos
e 27,5% nocivos; nos bioensaios com imaturos dos 17 agroquímicos
testados, 58,82% foram inócuos aos três estágios, enquanto
41,18% foram levemente nocivos, moderadamente nocivos e nocivos. T.
atopovirilia foi mais sensível que
T. pretiosum aos agroquímicos
testados, tanto nos testes com adultos, como nos bioensaios com imaturos.
PALAVRAS-CHAVE -Malus domestica, inimigo natural, parasitóide
de ovos, IOBC
A cultura da macieira é atacada por inúmeras pragas,
destacando-se os tortricídeos Bonagota cranaodes (Meyrick)
e Grapholita molesta (Busck) (Lepidoptera: Tortricidae), que vêm
aumentando em importância econômica nas últimas safras
(Kovaleski 2004). Os hábitos e comportamento
destes lepidópteros são fatores que dificultam seu controle,
que tradicionalmente é realizado através de várias
aplicações de inseticidas de amplo espectro de ação,
principalmente organofosforados (Kovaleski
& Ribeiro 2002).
Implementado no Brasil em 1997, o sistema de Produção
Integrada de Maçã (PIM), já na safra de 2004/05 chegou
a 48% da área total cultivada no país, sendo conduzida em
conformidade com suas normas (Lorenzzoni 2005).
Na PIM são preconizadas ações no sentido de conservar
os agentes de controle biológico, entre elas o uso de agroquímicos
seletivos que controlem eficientemente as pragas, sem prejudicar as populações
de inimigos naturais. Neste sentido, os microhimenópteros da família
Trichogrammatidae, em especial do gênero Trichogramma passam
a ser uma alternativa no manejo de B. cranaodes e de G. molesta
(Kovaleski
2004). Esses insetos são parasitóides de ovos, que atacam
inúmeras espécies de pragas agrícolas e florestais,
principalmente da Ordem Lepidoptera, sendo utilizados em programas de controle
biológico de pragas em várias culturas, e em diversos países
(Smith 1996). Além disso, esses parasitóides
são altamente efetivos, pois impedem a eclosão do hospedeiro
antes que qualquer dano seja causado à cultura (Hassan
1994). O parasitismo de Trichogramma pretiosum Riley (Hymenoptera:
Trichogrammatidae) em ovos de B. cranaodes foi registrado por Monteiro
et
al. (2004) em pomares comerciais de macieira. Pinto
et
al. (2002) mencionaram o parasitismo de T. pretiosum, porém
em posturas de G. molesta, em macieiras na América do Norte.
No Brasil, a espécie Trichogramma atopovirilia Oatman &
Platner (Hymenoptera: Trichogrammatidae), demonstra potencial no controle
de tortricídeos como Ecdytolopha aurantiana (Lima) (Lepidoptera:
Tortricidae) (Molina et al.
2005).
Considerando a ampla representatividade do gênero Trichogramma
no
grupo dos parasitóides e a distribuição geográfica
mundial, o grupo de trabalho da "International Organization for Biological
and Integrated Control of Noxious Animals and Plants (IOBC), West Palaearctic
Regional Section (WPRS)" escolheu Trichogramma cacoeciae Marchal
(Hymenoptera: Trichogrammatidae) como uma das espécies-padrão
de parasitóides a serem utilizadas em testes de seletividade para
registro de novos agroquímicos (Hassan
et
al. 2000). Reconhecendo que nenhum teste isolado pode fornecer
informações suficientes para classificar o efeito adverso
de um agroquímico, sob um organismo benéfico, este grupo
propõe um esquema seqüencial de testes (Hassan
1998a, Hassan et al. 2000). Segundo
a IOBC/WPRS o teste de toxicidade inicial com adultos em laboratório
avalia a inocuidade dos agroquímicos, sendo que aqueles produtos
considerados inócuos neste teste, também o serão a
campo, com raríssimas exceções. Bioensaios com estágios
imaturos do parasitóide são realizados para produtos que
venham a ser considerados moderadamente nocivos (classe 3) e nocivos (classe
4) nos testes de toxicidade inicial com adultos (Cônsoli
et
al. 1998).
Estudos de seletividade com agroquímicos a organismos benéficos
devem ser regionalizados e direcionados a cada programa específico
de manejo de cada cultura (Degrande et al.
2002).
Dessa forma, no Brasil para a cultura da macieira foram realizados trabalhos
com predadores, como Neoseiulus californicus (McGregor) (Acari:
Phytoseiidae) (Monteiro 2001) e Chrysoperla
externa (Hagen) (Neuroptera: Chrysopidae) (Ferreira et al. 2005
e 2006). Com parasitóides, mais
especificamente do gênero Trichogramma, destaca-se o estudo
recentemente publicado por Manzoni et al.
(2006)
onde foi avaliado o efeito de 12 fungicidas empregados na PIM a espécie
T.
pretiosum.
Este trabalho objetivou avaliar a seletividade de agroquímicos
utilizados na PIM, a adultos e estágios imaturos de T. pretiosum
e
de T. atopovirilia, em condições de laboratório.
Material e Métodos
Os experimentos foram conduzidos nos laboratórios de Biologia
de Insetos, Controle Biológico e de Pesticidas do Departamento de
Fitossanidade, Faculdade de Agronomia "Eliseu Maciel" Universidade Federal
de Pelotas, Pelotas-RS e executados seguindo protocolos recomendados pela
IOBC/WPRS para bioensaios com adultos e imaturos de Trichogramma spp.
(Hassan 1992, Cônsoli
et
al. 1998, Hassan 1998a, Hassan
et
al. 2000 e Hassan & Abdelgader
2001).
Material Biológico Utilizado nos Bioensaios. Os estudos
foram conduzidos com os parasitóides das espécies T. pretiosum
e
T.
atopovirilia provenientes de criações em laboratório,
realizadas em câmaras climatizadas (temperatura 25±1ºC,
umidade relativa 70±10% e fotofase de 14 h) e utilizando ovos do
hospedeiro alternativo Anagasta kuehniella (Zeller) (Lepidoptera:
Pyralidae). O hospedeiro foi criado segundo metodologia descrita por Parra
(1997), sendo os ovos destinados ao parasitismo inviabilizados previamente
sob lâmpada germicida (Stein & Parra
1987).
Bioensaios com Adultos de T. pretiosum e de T. atopovirilia.
Foram
avaliados 60 agroquímicos para a espécie T. pretiosum
e
40 agroquímicos para a espécie T. atopovirilia
(Tabelas
1,
2 e 3), todos empregados na PIM
e testados na máxima dosagem de registro para a cultura. O protocolo
da IOBC/WPRS preconiza a inclusão de um padrão tóxico
(testemunha positiva) nos estudos de seletividade como forma de avaliar
a sensibilidade relativa do sistema insetos/teste. Dessa forma, o inseticida
triclorfom (Dipterex 500) foi utilizado como testemunha positiva nos experimentos
por ser reconhecidamente nocivo a parasitóides do gênero Trichogramma
(Grützmacher
et al. 2004)
e estar registrado para a cultura da macieira. Já a testemunha negativa
foi constituída somente por água destilada. Em cada experimento
foram utilizadas quatro repetições por tratamento, sendo
dispostas no delineamento inteiramente casualizado. Todos os testes de
toxicidade foram conduzidos em condições controladas de temperatura
25±1°C, umidade relativa 70±10% e fotofase de 14 h.
Os produtos foram aplicados diretamente sobre placas de vidro (2 mm
de espessura e tamanho de 13 × 13 cm) através de pulverizadores
manuais (580 mL), calibrados para depositar 1,75±0,25 mg de calda
por cm2. O volume aplicado foi controlado através da pesagem das
placas, em balança eletrônica de precisão, antes e
após a pulverização dos tratamentos. Depois de receberem
os compostos, as placas permaneceram à temperatura ambiente por
cerca de três horas, para secagem completa da calda aplicada, formando
uma película seca do produto-teste. Com as placas de vidro tratadas
foram confeccionadas as gaiolas de contato.
Cada gaiola de contato (unidade experimental) foi composta por duas
placas tratadas servindo como fundo e cobertura, fixas a uma moldura retangular
de alumínio (13 cm de comprimento × 1,5 cm de altura ×
1 cm de largura), através de presilhas. Em três dos lados
da moldura de alumínio existiam orifícios para ventilação
(diâmetro aproximado de 1 cm), cobertos internamente com tecido fino
preto, aderido firmemente com fita adesiva, permitindo a troca de ar. O
quarto lado da moldura possuía dois orifícios, sendo o primeiro
(diâmetro de 3,5 × 1 cm) utilizado para introdução
dos ovos do hospedeiro para parasitismo e deposição de alimento
para os parasitóides em teste (composto por 3 g de gelatina, 100
mL de água e 200 g de mel) e o outro (diâmetro de 1 cm) para
inserção dos indivíduos adultos a serem testados,
através de conexão com tubos de emergência.
Cada tubo de emergência (ampola de vidro transparente com 12 cm
de comprimento × 2 cm de diâmetro em uma das extremidades e
0,7 cm na outra) continha um círculo de cartolina branca de 1 cm
de diâmetro com aproximadamente 250±50 ovos de A. kuehniella
previamente
parasitados, aderidos a uma tira de cartolina branca (8 × 1,5 cm)
com três finos filetes de alimento. Esses tubos contendo adultos
dos parasitóides ativos e com aproximadamente 24 h de idade foram
conectados às gaiolas de contato seis horas após a pulverização
dos pesticidas, permitindo a entrada dos parasitóides no interior
das gaiolas. Após 16 h da liberação dos parasitóides,
os tubos de emergência foram desconectados das gaiolas de contato
e mantidos sob condições controladas (25±1°C,
umidade relativa 70±10% e fotofase de 14 h) por no mínimo
três dias para total emergência de adultos, a fim de que fosse
possível calcular o número de indivíduos que entraram
na gaiola. Para evitar o aumento na concentração de gases
tóxicos no interior das gaiolas de contato, utilizou-se
um sistema de sucção de ar constituído por bombas
de aquário com fluxo invertido, o qual foi acoplado às gaiolas
por meio de mangueiras.
Para avaliar a capacidade de parasitismo das fêmeas sobreviventes
após seis horas da desconexão dos tubos de emergência
foram oferecidos ovos inviabilizados de A. kuehniella a serem parasitados
e alimento. Assim, cartões contendo 3 círculos de 1 cm de
diâmetro, tendo cada círculo 400±50 ovos, foram oferecidos
em sobreposição para parasitismo 24 (três cartões),
48 (dois cartões) e 96 (um cartão) horas após a pulverização,
perfazendo um período aproximado de 144 h, em que ovos do hospedeiro
ficaram disponíveis ao parasitismo.
Sete dias após a pulverização dos compostos, as
gaiolas foram desmontadas. Os cartões oferecidos ao parasitismo,
contendo ovos do hospedeiro alternativo foram transferidos para placas
de Petri descartáveis (9,0 × 1,5 cm) e mantidos nas mesmas
condições do teste por no mínimo três dias,
período suficiente para que houvesse o escurecimento dos ovos parasitados.
Para determinar o número de fêmeas por gaiola de contato,
inicialmente se obteve os parâmetros populacionais: número
de parasitóides por ovo e razão sexual. Estes foram obtidos
mediante avaliação de quatro círculos (1 cm de diâmetro)
contendo ovos parasitados, da mesma geração de insetos utilizados
nos testes. Posteriormente, foram contados o número de ovos parasitados
e o número de adultos remanescentes de cada tubo de emergência.
O número de ovos parasitados em cada tubo foi multiplicado pelo
número de parasitóides por ovo. O valor obtido foi subtraído
do número de adultos remanescentes em cada tubo e multiplicado pela
razão sexual da população.
O número de ovos parasitados em cada tratamento foi obtido mediante
contagem, sob microscópio estereoscópico, dos seis cartões
(18 círculos) ofertados durante o período de execução
do experimento. O número médio de ovos parasitados por fêmea
dos parasitóides em cada tratamento foi utilizado para calcular
o parasitismo. A redução no parasitismo para cada agroquímico
foi determinada através da comparação com a testemunha
(água destilada) e calculada por meio da fórmula de Hassan
et
al. (2000), onde: RP = (1 - Rt/Rc)*100, sendo RP a porcentagem
de redução no parasitismo, Rt o valor do parasitismo médio
para cada produto e Rc o parasitismo médio observado para o tratamento
testemunha (negativa).
Bioensaios com Estágios Imaturos de T. pretiosum e
de T. atopovirilia. Os agroquímicos testados foram aqueles
classificados como moderadamente nocivos (classe 3) e nocivos (classe 4),
nos testes de toxicidade inicial para adultos dos parasitóides em
laboratório, conforme descrito anteriormente. Desta forma, foram
conduzidos bioensaios com 19 agroquímicos para T. pretiosum e
17 agroquímicos para T. atopovirilia (Tabelas 1,
2
e 3), empregando-se procedimentos para pulverização
dos agroquímicos e testemunha, similares aos utilizados nos bioensaios
com adultos.
Foram expostos ao parasitismo por T. pretiosum e T. atopovirilia,
cartões contendo 60 círculos de 1 cm de diâmetro, sendo
que cada círculo possuía aproximadamente 400±50 ovos
do hospedeiro alternativo A. kuehniella, com no máximo 24
h de idade. Após o parasitismo, as fêmeas dos parasitóides
foram descartadas e os cartões contendo os ovos previamente parasitados
foram transferidos para cilindros de vidro (25 cm de comprimento ×
10 cm de diâmetro) e acondicionados em câmaras climatizadas,
sob mesmas condições da criação, até
que os parasitóides atingissem os períodos de desenvolvimento
de 24 h (1 dia), 72 h (3 dias) e 168 h (7 dias), correspondendo aos estágios
de ovo-larva, pré-pupa e pupa, respectivamente (Cônsoli
et
al. 1999a).
Os produtos foram pulverizados diretamente sobre os círculos
contendo os parasitóides nas fases de desenvolvimento de ovo-larva,
de pré-pupa e de pupa. Depois de tratados os ovos permaneceram a
temperatura ambiente, por cerca de três horas, para que houvesse
a eliminação do excesso de umidade produzido pela calda.
Passado este período, os círculos com ovos foram transferidos
para recipientes de vidro (10 cm de comprimento e 2,5 cm de diâmetro),
vedados na parte superior com tecido, preso com elástico, permitindo
a ventilação e evitando a fuga dos parasitóides após
emergência.
O número de adultos dos parasitóides encontrado em cada
recipiente de vidro, em relação ao número de ovos
parasitados contido no círculo de 1 cm de diâmetro foi utilizado
para determinar a porcentagem de emergência. As contagens foram realizadas
sob microscópio estereoscópico e a confirmação
da ocorrência do parasitismo se deu em função da coloração
escura do ovo. Cada tratamento foi repetido oito vezes, sendo que cada
círculo continha 400±50 ovos parasitados, e foi considerado
uma repetição, no delineamento inteiramente casualizado,
em esquema fatorial (agroquímicos × estágios ×
repetições).
Análise Resultados. Os parâmetros de redução
no parasitismo e emergência de adultos, em relação
à testemunha foram empregados para classificar os agroquímicos,
segundo a IOBC/WPRS em 1- inócuo (<30%), 2- levemente nocivo
(30-79%), 3- moderadamente nocivo (80-99%) e 4- nocivo (>99%).
Resultado e Discussão
Bioensaios com Adultos de T. pretiosum e de T. atopovirilia.
A
capacidade de parasitismo de fêmeas das espécies em estudo
foi afetada diferentemente pelas formulações comerciais testadas
(Tabelas 1, 2 e 3),
sendo que de acordo com critério da IOBC/WPRS dos 60 agroquímicos
avaliados para adultos de T. pretiosum, 60% (36) foram classificados
como inócuos (classe 1), principalmente os fungicidas; 10% (6) foram
levemente nocivos (classe 2); 16,67% (10) foram moderadamente nocivos (classe
3) e 13,33% (8) foram classificados como nocivos (classe 4). Enquanto que
para T. atopovirilia dos 40 agroquímicos avaliados, 45% (18)
foram considerados inócuos (classe 1); 15% (6) levemente nocivos
(classe 2); 12,50% (5) moderadamente nocivos e 27,50% (11) foram classificados
como nocivos (classe 4) (Tabelas 1, 2
e 3).
Tabela 1. Classes de toxicidade
para fungicidas utilizados na Produção Integrada de Maçã
obtidas nos experimentos com adultos e estágios imaturos de T. pretiosum
e T. atopovirilia. Temperatura 25±1ºC; UR: 70±10%; Fotofase:
14 horas. Pelotas, RS.
Tabela 2. Classes de toxicidade
para inseticidas e acaricidas utilizados na Produção Integrada
de Maçã, obtidas nos experimentos com adultos e estágios
imaturos de T. pretiosum e T. atopovirilia. Temperatura 25±1ºC;
UR: 70±10%; Fotofase: 14 horas. Pelotas, RS.
Tabela 3. Classes de toxicidade
para herbicidas e outros agroquímicos utilizados na Produção
Integrada de Maçã, obtidas nos experimentos com adultos e
estágios imaturos de T. pretiosum e T. atopovirilia. Temperatura
25±1ºC; UR: 70±10%; Fotofase: 14 horas. Pelotas, RS.
Comparados os resultados, verificou-se que de um total de 40 agroquímicos,
70% (28) mostraram a mesma classe de seletividade para T. pretiosum
e
T. atopovirilia. Os fungicidas captana 2, clorotalonil, cresoxim-metílico,
difenoconazol, dodina, imibenconazol, mancozebe 4, metiram, propinebe,
tebuconazol, e tiofanato metílico 3; o inseticida tebufenozida;
os acaricidas espirodiclofeno e fenpiroximato 1; o regulador de crescimento
vegetal cloridrato de aviglicina e o adubo foliar fosfito de potássio
foram inócuos (classe 1) a adultos das duas espécies em estudo
(Tabelas 1, 2 e 3).
Mancozebe 3 foi o único agroquímico, dentre os avaliados
que foi levemente nocivo (classe 2) para adultos das duas espécies
(Tabela 1). O acaricida/inseticida óleo mineral
1, o inseticida óleo mineral 2 e o herbicida glifosato 5 foram moderadamente
nocivos (classe 3) a adultos de T. pretiosum e de T. atopovirilia
(Tabelas
2 e 3). A classe 3 também
foi observada para o agroquímico óleo mineral 1, quando avaliado
para adultos de T. pretiosum
(Giolo
et
al. 2005a) e de T. cacoeciae (Grüztmacher et al.
2004), apesar dos autores utilizarem a metade da concentração
empregada neste trabalho. A mesma classificação foi encontrada
por Giolo
et al. (2005b) para o herbicida
glifosato 5 testado sob adultos de T. pretiosum.
Reduções superiores a 99% no parasitismo foram verificadas
para o fungicida/acaricida enxofre 1; o fungicida/inseticida pirazofós;
os inseticidas carbaril, fenitrotiona, fosmete, malationa e metidationa;
o acaricida/inseticida abamectina, bem como, para o inseticida triclorfom
(padrão de toxicidade) que foram classificados como nocivos (classe
4) para as duas espécies (Tabelas 1 e 2).
Estes resultados corroboram aos anteriormente verificados em bioensaios
com a espécie T. cacoeciae. Assim os ingredientes ativos
enxofre 1 (Hafez
et al. 1999), pirazofós
(Franz
et al. 1980), carbaril e fenitrotiona
(Hassan
et al. 1987), fosmete (Sterk
et
al. 1999), metidationa (Hassan 1998b),
abamectina (Hassan et al. 1998) mesmo
em outras formulações comerciais foram considerados nocivos
a adultos de T. cacoeciae. No entanto, resultados diferentes foram
encontrados por Youssef et al. (2004)
que ao testarem malationa sob T. cacoeciae, em outra formulação
comercial e em concentrações superiores (0,143% de i.a.)
a avaliada neste estudo, classificaram o produto como moderadamente nocivo
(classe 3). Considerando que foram usados o mesmo ingrediente ativo e concentrações
superiores, provavelmente estes resultados diferenciados podem ter ocorrido
devido a distintos fatores como, componentes utilizados na formulação
dos produtos, condições do ambiente onde foram conduzidas
as pesquisas, ou ainda a diferentes espécies ou linhagens do parasitóide.
Obtiveram classificação diferenciada, os fungicidas ditianona,
enxofre 2, famoxadona + mancozebe, mancozebe 2, pirimetanil, tetraconazol
e tiofanato metílico 2; os acaricidas piridaben e fenpiroximato
2; o herbicida glufosinato sal de amônio e os reguladores de crescimento
vegetal benziladenina + ácido giberélico e cianamida, representando
30% (12) do total de produtos testados para ambas as espécies (Tabelas
1,
2 e 3). Analisando as classes atribuídas
a estes produtos, para cada espécie do parasitóide, pode-se
inferir que o fungicida tiofanato metílico 2, o herbicida glufosinato
sal de amônio e o regulador de crescimento vegetal benziladenina
+ ácido giberélico tiveram seus efeitos mais pronunciados
sobre adultos de T. pretiosum, onde acarretaram maiores reduções
no parasitismo de fêmeas (Tabelas
1 e 3).
No entanto, cianamida, ditianona, enxofre 2, famoxadona + mancozebe, tetraconazol,
fenpiroximato 2, mancozebe 2, piridabem e pirimetanil causaram reduções
mais drásticas na capacidade de parasitismo de T. atopovirilia
sendo
considerados mais nocivos a adultos desta espécie (Tabelas
1,
2 e 3).
A maior amplitude nas classes de toxicidade foi observada para o acaricida
piridaben, que foi classificado como inócuo (classe 1) para T.
pretiosum e considerado moderadamente nocivo (classe 3) para T.
atopovirilia (Tabela 2).
Considerando que os bioensaios para as duas espécies de parasitóides
foram realizados seguindo metodologias padronizadas, utilizando-se o mesmo
hospedeiro alternativo, A. kuehniella, e os agroquímicos
avaliados nas mesmas concentrações, então os resultados
obtidos poderiam ser atribuídos às características
intrínsecas de cada espécie do parasitóide, uma vez
que a existência de diferenças de suscetibilidade interespecífica
de Trichogramma spp. a pesticidas, já havia sido previamente
relatada por Bull & Coleman (1985).
Desta forma, os resultados supõem uma maior sensibilidade de adultos
da espécie T. atopovirilia a determinados agroquímicos,
e demonstram que a extrapolação de resultados de testes de
seletividade obtidos com uma espécie para outra deve ser cautelosa
ou mesmo evitada (Degrande et al. 2002).
Bioensaios com Estágios Imaturos de T. pretiosum e
T.
atopovirilia. Do total de 19 produtos testados para T. pretiosum,
73,68% (14) se mostraram inócuos para todos os estágios de
desenvolvimento (Tabelas 1, 2 e
3).
Dos 17 agroquímicos avaliados sob estágios imaturos de T.
atopovirilia, observou-se que 58,82% (10) foram considerados inócuos
às três fases de desenvolvimento do inseto (Tabelas 1,
2 e 3).
Comparando os resultados verificou-se que o fungicida/acaricida enxofre
2, os inseticidas fosmete e óleo mineral 2, o herbicida glifosato
5 e o regulador de crescimento vegetal cianamida foram considerados inócuos
(classe 1), aos três estágios imaturos de T. pretiosum
e
de T. atopovirilia (Tabelas 1, 2
e 3). O inseticida metidationa foi considerado levemente
nocivo (classe 2) a imaturos de T. pretiosum
e de T. atopovirilia,
no entanto esta classificação foi somente atribuída,
respectivamente, às fases de pupa e pré-pupa destas espécies
(Tabela 2).
Os demais produtos testados não apresentaram o mesmo comportamento
para as duas espécies do parasitóide, sendo enquadrados em
classes diferenciadas (Tabelas 1, 2
e 3). Assim, o acaricida/inseticida óleo mineral
1 considerado o mais tóxico dentre os agroquímicos avaliados
nos bioensaios de T. pretiosum e classificado como levemente nocivo
(classe 2) às fases de pré-pupa e pupa, não repetiu
os mesmos resultados para T. atopovirilia (Tabela
2). Da mesma forma, os inseticidas organofosforados carbaril, fenitrotiona
e triclorfom que causaram efeitos deletérios (classes 3 e 4) nos
três estágios de desenvolvimento de imaturos de T. atopovirilia,
foram considerados inócuos em todas as fases imaturas de T. pretiosum
(Tabela
2).
Bioensaios realizados por Grützmacher
et
al. (2004) com imaturos de T. cacoeciae verificaram que
o acaricida/inseticida óleo mineral 1 foi inócuo às
três fases de desenvolvimento do inseto. Os mesmos autores avaliaram
triclorfom e o consideraram levemente nocivo (classe 2) ao estágio
de ovo-larva e moderadamente nocivo às fases de pré-pupa
e pupa. Possíveis explicações para os distintos resultados
podem estar relacionadas às diferentes concentrações
do produto comercial empregadas, ainda às características
intrínsecas dos ovos hospedeiros, como permeabilidade do córion
e das camadas adjacentes que são variáveis em função
da espécie (Cônsoli et al.
1999b),
da mesma forma, diferenças de suscetibilidade interespecíficas
de Trichogramma spp. (Bull & Coleman,
1985) também poderiam justificar os resultados, já que
os testes foram realizados com a espécie T. cacoeciae, utilizando
Sitrotroga
cerealella (Olivier) (Lepidoptera: Gelechiidae), como hospedeiro alternativo.
Para os agroquímicos avaliados sob imaturos de T. pretiosum
foram
somente atribuídas as classes 1 e 2, inócuo e levemente nocivo,
respectivamente (Tabelas 1, 2 e
3),
o que é extremamente positivo no que diz respeito à sua utilização
no contexto do manejo integrado de pragas na PIM. Reduções
mais drásticas na emergência de adultos foram verificadas
para a espécie
T. atopovirilia, sendo constatadas as classes
3 (moderadamente nocivo) e 4 (nocivo) nos bioensaios conduzidos com imaturos
deste parasitóide (Tabela 2). Este resultado
demonstra a maior sensibilidade de T. atopovirilia
a alguns agroquímicos.
Considerando os agroquímicos testados, a fase de desenvolvimento
de ovo-larva (interior do ovo do hospedeiro) foi a considerada menos sensível,
visto que teve maioria dos produtos, 94,74% para T. pretiosum e
76,47% para T. atopovirilia considerados inócuos (classe
1) (Tabelas 1, 2 e 3).
Por outro lado, os estágios de pupa e de pré-pupa, foram
para T. pretiosum e T. atopovirilia, respectivamente, os
mais sensíveis à ação dos agroquímicos
avaliados, incluindo as classes 3 e 4 (Tabelas 1, 2
e 3). Estes resultados discordam dos esperados, visto
que na literatura (Hassan 1998a), a fase de
pupa, é considerada como sendo o estágio de vida menos sensível
do parasitóide
Trichogramma e onde o inseto estaria menos
exposto à ação de agroquímicos.
Além dos constantes tratamentos com inseticidas organofosforados,
reconhecidamente nocivos a populações de inimigos naturais,
alguns agroquímicos que não possuem seu modo de ação,
diretamente relacionados à fisiologia dos insetos como fungicidas,
herbicidas e reguladores de crescimento vegetal, também podem acarretar
efeitos deletérios aos parasitóides do gênero Trichogramma,
como observado neste trabalho (Tabelas 1, 2
e 3).
Conforme constatado neste estudo a espécie T. atopovirilia
foi
a que demonstrou maior sensibilidade aos agroquímicos avaliados.
Nos bioensaios com adultos, 40% dos agroquímicos foram enquadrados
nas maiores classes de toxicidade (3 e 4), enquanto que para T. pretiosum,
este valor foi de 30%. Já em testes com imaturos de T. atopovirilia,
41,18% dos produtos afetaram a emergência de adultos nos diferentes
estágios de desenvolvimento ao passo que para T. pretiosum somente
26,31% (Tabelas 1, 2 e 3).
Agradecimentos
Os autores agradecem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico do Brasil (CNPq) e à Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS) pelo
apoio financeiro para a realização desta pesquisa.
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