Estudo Comparativo do Efeito Larvicida
de Extratos de Frutos Verdes e Maduros de Melia azedarach L. (Sapindales:
Meliaceae) em Aedes aegypti L. (Diptera: Culicidae)
JOSIANE SOMARIVA PROPHIRO1,2, JULIANA CHEDID NOGARED ROSSI2,
LUIZ ALBERTO KANIS3, TANIA GONÇALVES DOS SANTOS2,
ONILDA
SANTOS DA SILVA2
1 Laboratório de Entomologia Médica
e Veterinária, Departamento de Zoologia, Programa de Pós-graduação
em Ciências Biológicas, Entomologia. Universidade Federal
do Paraná. Caixa Postal 19020, CEP: 81531-980, Curitiba-PR, Brasil.
2 Laboratório de Entomologia Médica,
Curso de Medicina e Curso de Ciências Biológicas, Universidade
do Sul de Santa Catarina, Av. José Acácio Moreira, 787, Dehon,
CEP: 88704-900, Tubarão-SC, Brasil. E-mail:
onilda.silva@unisul.br.
3 Laboratório de Tecnologia Farmacêutica,
Curso de Farmácia, Universidade do Sul de Santa Catarina, Av. José
Acácio Moreira, 787, Dehon, CEP: 88704-900, Tubarão-SC, Brasil.
Comparative Study of the Larvicidal Effect of Ripe and Unripe
Fruits Extracts of Melia azedarach L. (Sapindales: Meliaceae) on Aedes
aegypti L. (Diptera: Culicidae)
ABSTRACT - The insecticidal activity of Melia azedarach L.
(Sapindales: Meliaceae) in insects of agriculture importance have been
extensively evaluated. However, the possibility of the use of this plant
in the control of insects of medical importance is poorly studied. The
aim of this work was to compare the larvicidal effect of ethanolic extracts
of unripe and ripe fruits of M. azedarach on Aedes aegypti (Linnaeus,
1762) (Diptera: Culicidae). The results showed that both extracts of unripe
and ripe fruits of M. azedarach caused larval mortality. The lethal
concentrations (LC50, LC90 e LC95) obtained
from unripe fruits were 0.08%, 0.31% and 0.47% respectively to 3º
instar and 0.18%, 0.43% and 0.55% respectively to 4º instar of A.
aegypti after 48h exposition. In relation to the ripe fruits the LC50,
LC90 and LC95 were 0.05%, 0.10% and 0.12% respectively
to the 3º instar and 0.05%, 0.11% and 0.14% respectively to the 4º
instar, after 48 h of exposition. These results showed that ripe fruits
are more effective than unripe fruits for controlling A. aegypti larvae.
RESUMO - A atividade inseticida de Melia azedarach L.
(Sapindales: Meliaceae) em insetos de importância agrícola
tem sido extensivamente avaliada. Contudo, a possibilidade de uso desta
planta no controle de insetos de importância médica é
pouco estudada. O objetivo deste estudo foi comparar o efeito larvicida
de extratos etanólicos de frutos verdes e maduros de M. azedarach
em
Aedes
aegypti (Linnaeus: 1762) (Diptera: Culicidae). Os resultados obtidos
demonstraram que ambos os frutos verdes e maduros de M. azedarach
causaram
mortalidade nas larvas. As concentrações letais (CL50,
CL90 e CL95) obtidas do extrato de frutos verdes
foram 0,08%, 0,31%, 0,46% respectivamente para 3º estádio,
e 0,18%, 0,43%, 0,55% respectivamente para 4º estádio, após
48 horas de exposição. Em relação ao extrato
de frutos maduros, as CL50, CL90 e CL95
foram de 0,05%, 0,10%, 0,12% respectivamente para 3º estádio
e 0,05%, 0,12%, 0,14% respectivamente para 4º estádio, após
48 horas de exposição. Os resultados demonstram que o extrato
de frutos maduros é mais eficiente do que frutos verdes, para o
controle de larvas de A. aegypti.
Atualmente, o vírus causador da dengue
é considerado como uma das mais importantes arboviroses em saúde
pública. Estima-se que entre 50 e 100 milhões de pessoas
se infectem anualmente em mais de 100 países de todos os continentes,
exceto a Europa (WHO 1997b). O principal responsável
pela transmissão mundial do vírus é o Aedes aegypti
(Linnaeus,
1762) (Diptera: Culicidae). Este culicídeo é considerado
o vetor mais eficiente de várias espécies de arbovírus,
principalmente o vírus da dengue (WHO 1997a).
Em geral, as estratégias de combate à dengue estão
baseadas no controle do vetor, que no Brasil é o A. aegypti.
O controle é tradicionalmente baseado no emprego de produtos químicos
sintéticos e biológicos, integrados com programas de manejo
ambiental. No Brasil, os programas que visam controlar esta espécie
de mosquitos utilizam principalmente inseticidas químicos, onde
se destacam os organofosforados e piretróides (Duque
et
al. 2004). Entretanto, o freqüente emprego de inseticidas
químicos no controle de vetores pode favorecer o desenvolvimento
de resistência dos mesmos, contribuindo para o aumento das populações
de mosquitos (Pinheiro & Tadei 2002,
Lima
et
al. 2003; Marcoris
et al.
2003).
Dentre os métodos alternativos ao uso de inseticidas químicos,
incluem-se os extratos botânicos, principalmente os que pertencem
à família Meliaceae. O maior destaque é dado à
planta Azadirachta indica A. Juss (Sapindales: Meliaceae), usualmente
conhecida por nim, com efeito confirmado em mais de 300 espécies
de insetos (Martinez 2002). Esta planta não
é nativa do Brasil, mas os bons resultados verificados com o nim
têm estimulado pesquisas com outras plantas no intuito de encontrar
novas espécies com atividade inseticida.
Dentre estas, destaca-se Melia azedarach L. (Sapindales: Meliaceae),
planta também pertencente à família Meliaceae, e conhecida
popularmente como cinamomo, santa-bárbara, jasmim-de-soldado e pára-raios.
É uma espécie proveniente do continente asiático,
e no Brasil tem ampla distribuição geográfica, ocorrendo
em todas as regiões (Joly 1985).
Atualmente, esta planta vem sendo avaliada para controle de várias
espécies de insetos. Salles & Rech
(1999) descreveram sobre a ação inseticida de extratos
de frutos de M. azedarach
em mosca-das-frutas Anastrepha fraterculus
(Wiedemann,
1830) (Diptera: Tephritidae), reduzindo a postura, o desenvolvimento larval
e pupal do inseto. Brunherotto &
Vendramim (2001) avaliaram o efeito inseticida de extratos de
M.
azedarach na traça-do-tomateiro
Tuta absoluta (Meyrick,
1917) (Lepidoptera: Gelechiidae), constatando que as folhas foram a estrutura
vegetal com maior bioatividade sobre a traça. Nardo
et
al. (1997) verificaram interferência na longevidade e no
desenvolvimento de formas imaturas da mosca branca
Bemisia tabaci
(Gennadius,
1889) (Hemiptera: Aleyrodidae) pela utilização de extratos
de M. azedarach. Souza & Vendramim
(2001) avaliaram o efeito de extratos aquosos de ramos, folhas, frutos
verdes e frutos maduros de M. azedarach, sobre ovos e ninfas de
B.
tabaci biótipo B, criada em tomateiro. Os frutos verdes de M.
azedarach foram mais efetivos, seguindo-se as folhas e os frutos maduros.
Com relação a insetos vetores, Valladares
et
al. (1999) avaliaram o efeito de extratos de frutos e folhas de
M. azedarach sobre Triatoma infestans
(Klug, 1834) (Hemiptera:
Reduviidae) vetor do Trypanosoma cruzi
(Trypanosomatida: Trypanosomatidae).
Os extratos de fruto verde e fruto maduro demonstraram ser repulsivos,
enquanto as folhas foram ineficazes. Não foi observado efeito sobre
ovos, sobrevivência das ninfas e tempo de desenvolvimento. Nathan
et
al. (2005) testaram extratos metanólicos de folhas e sementes
de M. azedarach sobre adultos e imaturos de Anopheles stephensi
Liston
(Diptera: Culicidae). Wandscheer
et al.
(2004) verificaram a bioatividade de extratos etanólicos
de endocarpos de frutos maduros de M. azedarach e A. indica sobre
larvas de Aedes aegypti, ambos os extratos mostraram letalidade
para larvas de 3º e 4º estádio.
Devido a grande necessidade de um controle mais efetivo sobre os vetores
do vírus da dengue, é necessário que um maior número
de estudos seja conduzido de forma a se desenvolverem inseticidas naturais
que não afetem o meio ambiente. Assim, o objetivo deste estudo foi
comparar o efeito larvicida de extratos etanólicos de frutos verdes
e maduros de M. azedarach em uma linhagem de A. aegypti resistente
ao inseticida temefós, em condições de laboratório.
Material e Métodos
Mosquitos. Para a realização dos biosensaios foram
utilizadas larvas de 3º e 4º estádios de uma colônia
de Aedes aegypti (GCZ - Gerência de Controle de Vetores),
recebidos da Fundação Nacional de Saúde – Brasília.
A colônia é mantida no Laboratório de Entomologia Médica
em temperatura de 25 ± 2 ºC e 80% ± 2 UR, e fotofase
de 14h. As larvas foram criadas em potes plásticos com água
fervida, e alimentadas com ração para filhotes de cães,
três vezes por semana. Machos e fêmeas adultos foram providos
constantemente com uma solução de 5% de mel, e, para o repasto
sanguíneo das fêmeas, foi oferecido um camundongo anestesiado
duas vezes na semana. Para a oviposição das fêmeas,
pedaços de papel filtro umedecidos foram colocados em placas de
Petri no interior da gaiola.
Extratos. As amostras de frutos verdes e frutos maduros de M.
azedarach foram coletados de árvores localizadas na região
de Sertão dos Corrêas, no município de Tubarão,
SC, durante os anos de 2004 e 2005. Para a obtenção dos extratos
etanólicos, uma massa de 300 gramas de cada material foi mantida
em maceração com agitação mecânica durante
cinco dias com 1,9 litros de líquido extrator (etanol 100%). Em
seguida, os extratos foram filtrados e concentrados em evaporador rotatório
sob vácuo e temperatura de 40ºC, até a obtenção
do extrato bruto.
Bioensaios. O extrato bruto foi previamente solubilizado em Tween
20 na concentração de 0,015% à temperatura de 40 ºC;
em seguida foi adicionado volume pré-definido de água-deionizada
a 40 ºC e mantido sob agitação mecânica durante
30 minutos. Recipientes plásticos com capacidade de 350 ml foram
preenchidos com 100 ml das soluções contendo o extrato e
em cada um foram adicionadas 20 larvas ativas de 3º ou 4º estádio.
Para cada concentração e estádio larval, os testes
foram repetidos pelo menos cinco vezes. Para cada experimento, um controle
com água e Tween-20 foi utilizado. A mortalidade das larvas foi
medida em 24 e 48h de exposição aos extratos testados. A
mortalidade foi comprovada quando as larvas foram tocadas com agulhas histológicas
e não apresentaram movimentos. Os testes seguiram o protocolo da
Organização Mundial de Saúde (WHO
1981).
Análise estatística. Os valores de concentração
letal CL50, CL90 e CL95 nos períodos
de 24 e 48h foram estimados pela análise Probit (Finney
1971). Para detectar diferenças entre os tratamentos em relação
à mortalidade de 3º e 4º estádios, entre 24 e 48h
de exposição e entre os extratos, aplicou-se análise
de variância (ANOVA/MANOVA) pelo programa STATISTICA 6.0. O nível
de significância adotado para os testes foi de 5%.
Resultados e Discussão
Nas condições em que foram desenvolvidos todos os testes
de suscetibilidade das larvas de A. aegypti, obteve-se mortalidade
em doses dependentes de todos os extratos botânicos de M. azedarach
(Tabela
1). A inexistência de mortalidade em todos os grupos controle indica
que o Tween utilizado para diluir o extrato, não afetou o desenvolvimento
larval.
Tabela 1. Susceptibilidade de
larvas (3º e 4º estádios) de A. aegypti (Cepa:
GCZ) em 24 e 48h, após exposição aos extratos etanólicos
de frutos verdes e maduros de Melia azedarach.
A mortalidade causada pelos extratos de frutos verdes e extratos de
frutos maduros não expressou diferença significativa entre
os estágios (3º e 4º), tanto em 24 como em 48h de exposição
(F = 0,5; gl = 4; P < 0,73).
Por outro lado, pode-se observar que houve diferença significativa
na mortalidade larval entre os períodos avaliados (24 e 48h) de
exposição ao extrato de frutos verdes e extrato de frutos
maduros (F = 26,42; gl = 16; P = 0,0001). Quando se compara a mortalidade,
causada apenas pelo extrato de frutos verdes, entre os períodos
de 24 e 48h observa-se diferença significativa (F = 11,23; gl =
8; P = 0,0012). Do mesmo modo, ocorre com a mortalidade causada apenas
pelo extrato de frutos maduros, entre 24 e 48h de exposição
(F = 14,20; gl = 8; P = 0,00055).
A análise comparativa entre a mortalidade larval causada pelo
extrato de frutos verdes e extrato de frutos maduros, demonstrou que existe
diferença significativa entre os extratos, tanto em 24 como em 48h
de exposição (F = 8,99; gl = 8; P = 0,0027 e F = 16,68; gl
= 8; P = 0,000311), respectivamente.
Através deste estudo, foi comprovada a susceptilidade de A.
aegypti aos extratos botânicos de M. azedarach, principalmente
aos extratos de frutos maduros. De acordo com Roel
(2001), uma alternativa para evitar o desenvolvimento de resistência
a produtos químicos sintéticos é a utilização
de produtos envolvendo plantas inseticidas. Substâncias extraídas
dessas plantas têm inúmeras vantagens quando comparadas ao
emprego de sintéticos. Os inseticidas naturais são obtidos
de recursos renováveis e rapidamente degradáveis e o desenvolvimento
de resistência dos insetos a essas substâncias (compostas da
associação de vários princípios ativos) é
um processo lento, além de não deixarem resíduos.
Todos os extratos avaliados causaram mortalidade nas larvas. Entretanto,
aqueles de concentrações 0,50% para frutos maduros e 0,65%
para frutos verdes, causaram mortalidade total em 48 horas de exposição.
Comparando os resultados entre o extrato bruto de frutos verdes e o extrato
bruto de frutos maduros de M. azedarach, o extrato de frutos maduros
é o melhor larvicida para A. aegypti.
Nathan et al. (2005), utilizando
extratos metanólicos de folhas e sementes de M. azedarach constataram
atividade larvicida, contra outro culicídeo de importância
médica, Anopheles stephensi. Relações de dose-resposta
claras foram estabelecidas com a dose mais alta de 2% de extrato da planta
que induziu a mortalidade de 96%. Além disso, verificaram importante
atividade letal sobre pupas e adultos, além de efeito repelente
e deterrente. Para os autores, o extrato das sementes evidenciou alta bioatividade
em todas as doses, enquanto os extratos de folhas foram ativos, somente
na dose mais elevada. Por outro lado os extratos da semente suprimiram
a atividade pupal e do adulto de Anopheles stephensi, mesmo na menor
dose.
Ainda com relação à utilização de
extratos botânicos de M. azedarach em insetos de importância
médica, Valladares et al. (1999)
verificaram os efeitos de extratos etanólicos de folhas, frutos
verdes e maduros de M. azedarach sobre ovos e ninfas de Triatoma
infestans (Hemiptera: Reduviidae), um dos vetores do Trypanossoma
cruzi.
Wandscheer et al. (2004) avaliaram
o efeito tóxico de extratos de sementes dos frutos maduros de M.
azedarach em larvas de Aedes aegypti cepa Rockfeller, e obtiveram
concentrações letais de CL50: 0,166%, CL90:
0,604% e CL99: 1,03%, respectivamente. Parte dos resultados
obtidos no presente estudo foi similar aos apresentados por esses autores.
Entretanto, é importante observar que os mesmos utilizaram apenas
as sementes dos frutos maduros. A utilização integral dos
frutos, como em nosso estudo, proporciona uma melhor valorização
da parte botânica utilizada, aumentando o potencial para uso da planta
no controle de larvas de mosquitos.
A confirmação do efeito larvicida de frutos verdes e maduros
de M. azedarach em A. aegypti, assim como de outras espécies
de plantas inseticidas, é de grande importância para o desenvolvimento
de larvicidas naturais.
Agradecimentos
Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq), pelo apoio financeiro ao projeto, processo 501527/03-6, e às
bolsas de iniciação científica processos: 100569/04-8
(NV) e 100568/04-1 (NV).
Literatura Citada
Brunherotto, R. & J.D. Vendramim.
2001. Bioatividade de extratos aquosos de Melia azedarach L. sobre
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